Leopoldo JereissatiFala Man

10 jul 2026 · 2 min de leitura · Jornal da Cidade

A paz de Cristo

Sabe que, nos dias de hoje, são tantas as preocupações e os anseios, são tantos os desejos materiais e imateriais, vivemos duas realidades ao mesmo tempo, uma diante dos nossos olhos e outra projetada nas redes sociais, e existem tantos pontos de vista diferentes sobre um mesmo fato que até o simples passar de mais um dia comum pode parecer pesado.

Nesses momentos, a gente busca ajuda. Busca na terapia, busca na prosa com os amigos, busca na família, busca na igreja, busca na associação, busca no trabalho, busca em algum apoio social. A gente apenas busca.

O curioso é que o próprio ato de buscar sem parar nos coloca de volta no loop mais complicado dos dias atuais: a roda do hamster. Somos incentivados a nos cansar. Não porque alguém nos obriga, mas porque passamos a acreditar que sempre falta mais alguma coisa. Mais conhecimento, mais desempenho, mais equilíbrio, mais produtividade, mais saúde, mais espiritualidade, mais presença.

Byung-Chul Han escancara isso ao descrever a sociedade do cansaço, onde deixamos de ser explorados por alguém para nos tornarmos exploradores de nós mesmos. Friedrich Nietzsche dizia que quem tem um porquê suporta quase qualquer como, enquanto a tradição budista nos lembra que boa parte do sofrimento nasce justamente do apego e da tentativa incessante de controlar aquilo que nunca esteve sob nosso controle.

Hoje, numa manhã comum de domingo, acordei exatamente nesse lugar. Pensei se deveria malhar para fazer bem ao corpo, organizar a brinquedoteca dos meus filhos, separar o excesso de brinquedos para doação, aproveitar para jogar tênis, chamar alguém para assistir ao jogo da Copa ou simplesmente meditar. Antes mesmo de sair da cama conferi meu anel de bem estar. Nota 89 para o sono. Adormeci em menos de três minutos na noite anterior. Não era eficiência. Era cansaço.

No banho, enquanto a água quente caía, meus demônios resolveram aparecer. Vieram a dor, a culpa, a raiva e, logo depois, quase como uma resposta a tudo aquilo, um desejo profundo de perdão. De me perdoar, de ser mais gentil comigo mesmo e de conseguir perdoar também os outros.

Fui à igreja com minha esposa e meu filho mais novo. Como faço tantas vezes, me ajoelhei e pedi uma luz. Ele sempre me dá. Não haveria de falhar dessa vez.

Durante boa parte da missa, entretanto, me peguei no modo automático, acompanhando mecanicamente as palavras do folhetinho preto, branco e verde, enquanto esperava algum sinal que surgisse de forma espontânea, sem que eu precisasse procurá-lo.

Já para o final da missa, o padre diz: "A paz de Cristo..." e, ao meu lado, pessoas que nunca vi, senhoras, um casal, outros que conheço do clube, nos entreolhamos e dizemos genuinamente uns aos outros:

Paz de Cristo.

Era tudo o que eu precisava.

Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1606 — 10/07/2026, p. 2. Ver a edição (PDF). Também no canal do WhatsApp.