Leopoldo JereissatiFala Man

3 jul 2026 · 2 min de leitura · Jornal da Cidade

Quando um Hino vale mais que um Gol

Há Copas do Mundo que ficam na memória pelos campeões, outras pelos gols, e há aquelas que talvez fiquem pelos arrepios que provocam antes mesmo de a bola rolar. Esta Copa parece caminhar por esse lugar mais íntimo, em que o futebol deixa de ser apenas resultado e passa a tocar alguma coisa que estava guardada dentro da gente.

Ainda faltam muitos jogos, há favoritos pelo caminho e gigantes caindo cedo, como a Holanda, que tantos em Holambra aprenderam a chamar de segunda casa. A seleção holandesa fez uma campanha digna, jogou bonito, carregou sua tradição, mas voltou para casa antes da hora, eliminada nos pênaltis por Marrocos. Doeu por lá e doeu por aqui também, porque Holambra sabe que existem derrotas que não pertencem apenas ao placar.

Quando o Brasil enfrentou o Japão, a partida pareceu mais um teste cardíaco coletivo do que um jogo de Copa. Saímos atrás, erramos, sofremos, empatamos e encontramos o gol da classificação já nos últimos instantes, naquele tipo de jogo que ninguém assiste impunemente, porque quando termina ainda fica um resto de tensão no corpo e uma alegria meio desorganizada no peito.

Mas, curiosamente, os momentos que mais emocionaram nem aconteceram com a bola rolando. Vieram antes, na execução dos hinos, quando jogadores, torcedores, crianças e pais pareceram se encontrar em uma mesma lembrança. E talvez a cena mais bonita tenha sido ver um técnico italiano cantando o Hino Nacional Brasileiro como se tivesse nascido aqui, não apenas decorando palavras, mas tentando pertencer a elas. Carlo Ancelotti, ao cantar nosso hino, nos lembrou que amar um país também pode ser uma escolha, e talvez por isso tanta gente tenha chorado.

No fundo, talvez estejamos todos cansados de tudo o que nos separa. As redes nos dividiram, a política nos dividiu, os algoritmos descobriram que o conflito prende mais atenção do que a concordância, e a rotina fez cada um torcer apenas pelo próprio resultado. Então chega uma Copa do Mundo e, durante noventa minutos, ninguém pergunta em quem você votou, quanto você ganha ou qual é o seu sobrenome. Somos apenas brasileiros, e isso anda fazendo falta.

Estamos carentes de pertencimento, de histórias maiores do que nós, de símbolos compartilhados e de motivos simples para abraçar desconhecidos. Talvez por isso um estádio inteiro cantando junto tenha mais força do que qualquer discurso, porque nos lembra que ainda existe um “nós”, mesmo que por pouco tempo, mesmo que entre um apito inicial e outro final.

Agora a Copa entra naquele trecho em que cada jogo parece carregar destino. O cheiro da grama parece mais forte, o silêncio antes de um pênalti dura mais do que deveria e os minutos finais deixam de ser medidos pelo relógio para serem medidos pelos batimentos do coração. Ainda vamos comemorar, sofrer e prender a respiração, porque toda grande história mantém a dúvida viva até a última página.

Talvez seja exatamente isso que este Mundial esteja nos devolvendo: a possibilidade rara de sentir junto.

Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1605 — 03/07/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).