Leopoldo JereissatiFala Man

17 jul 2026 · 3 min de leitura · Jornal da Cidade

Quem conhece cada esquina, sou Eu

Outro dia me peguei pensando em uma coisa curiosa. Nunca tivemos tanto acesso à informação. Em poucos segundos, a inteligência artificial responde praticamente qualquer pergunta. Ela conhece guerras, economias, descobertas científicas, estatísticas e até consegue escrever textos como este. Mas existe uma coisa que ela ainda não sabe.

Ela não conhece a esquina.Não sabe por que a padaria mudou de dono. Não entende por que uma obra parada incomoda tanto aquela cidade. Não conhece o apelido das pessoas, nem percebe quando uma notícia pequena, daquelas que jamais apareceriam em um portal nacional, muda o dia de uma comunidade inteira. Ela conhece o mundo. O jornal da cidade conhece as pessoas. E talvez seja justamente aí que mora a diferença.

Os grandes veículos ajudam a entender o Brasil. Os jornais locais ajudam o Brasil a entender cada uma de suas cidades. Escrevem na língua de quem mora ali, de quem não precisa de mapa nem de legenda para entender uma manchete.

Em tempos de inteligência artificial, todo mundo fala de dados. Mas notícia nunca foi só dado. Notícia é contexto. E contexto não se aprende na internet. É construído caminhando pelas ruas, tomando um café no balcão, conversando com comerciantes, produtores, professores, vereadores, pais, mães e avós. É saber onde uma história começou muito antes de ela virar manchete.

Talvez aconteça a mesma coisa com a influência. Vivemos a era dos milhões de seguidores. Mas quantidade nunca foi sinônimo de relevância.

Um jornal local talvez nunca seja o maior influenciador da internet. Mas dificilmente alguém influencia mais uma cidade do que quem a acompanha todos os dias. É esse tipo de influência que mobiliza campanhas solidárias, fortalece pequenos negócios, cobra soluções, celebra conquistas e, principalmente, cria um sentimento de pertencimento. Influência passa. Confiança fica.

Ao olhar para os 32 anos do Jornal da Cidade, fica impossível não perceber que sua história se mistura com a própria história de Holambra. Enquanto a cidade crescia, florescia e mudava, havia alguém registrando tudo isso. Semana após semana. Chovesse ou fizesse sol. Em tempos de prosperidade ou de dificuldade.

Quem conhece uma redação de jornal local sabe que ela não funciona apenas por planilhas ou números. Funciona porque existe gente que acredita que vale a pena contar a história da própria cidade. Mudaram os governos. Mudou a forma de consumir notícias. Chegaram a internet, as redes sociais e agora a inteligência artificial. O jornal continuou. E talvez continue justamente porque nunca vendeu apenas informação. Sempre entregou pertencimento.

Um dia, meu telefone tocou. Era a Dona Leila. Sem que antes tivéssemos nos conhecido, ela simplesmente me comunicou que eu tinha uma missão. Um legado para carregar adiante: dar continuidade às crônicas da minha avó Ilda nas páginas deste jornal. Não lembro de ter aceitado. Acho que algumas missões simplesmente nos escolhem.

Imagino que seja com essa mesma mistura de firmeza e carinho que o Jornal da Cidade chega aos seus 32 anos. Sabendo que tecnologias mudam, plataformas mudam, hábitos mudam. Mas uma cidade sempre precisará de alguém que conheça suas esquinas. E, principalmente, de alguém disposto a continuar contando suas histórias.

Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1607 — 17/07/2026, p. 2. Ver a edição (PDF). Também no canal do WhatsApp.