Leopoldo JereissatiFala Man

3 abr 2026 · 3 min de leitura · Jornal da Cidade

O amigo do meu irmão

Tem gente que entra na nossa vida pela porta da frente, apresentada, nomeada, reconhecida desde o começo. E tem gente que entra pela lateral, quase sem anúncio, como quem chega para ficar sem jamais precisar explicar muito bem por quê.

O amigo do nosso irmão costuma ser assim. Primeiro, ele não é exatamente nosso. É dele. É o melhor amigo dele, o parceiro inseparável, a figura que começa a aparecer em casa com tanta frequência que, de repente, já conhece o caminho, já sabe onde sentar, já abre a geladeira, já está nas viagens, nos almoços, nas férias, nos aniversários e nos fins de tarde comuns. E, quando a gente percebe, aquela pessoa já deixou de ser apenas uma visita e passou a ocupar um espaço difícil de definir, porque já não cabe mais só na palavra amigo, mas também não é irmão no sentido literal. É alguma coisa no meio disso. Uma família que a convivência foi escolhendo para nós.

Talvez por isso essa seja uma das figuras mais bonitas que existem. Porque é um vínculo que nasce sem obrigação, sem formalidade e sem título, construído só pelo tempo, pela repetição dos encontros, pela intimidade que vai se instalando devagar, até que um dia já faz parte da paisagem afetiva da nossa vida. Ele deixa de ser o amigo do meu irmão e passa a ser uma dessas presenças que a gente sente como parte da própria história, alguém que atravessou a infância junto, esteve por perto em momentos que nem pareciam importantes na época, mas que depois percebemos ter sido exatamente os que nos formaram.

O mais curioso é que a vida, que tantas vezes se encarrega de afastar pessoas, com essas às vezes faz o contrário. Ela reencontra. Ela costura de novo. E então, anos depois, um deles aparece numa aula de tennis, no clube, numa ligação de trabalho, numa indicação inesperada, como se o tempo tivesse seguido adiante sem levar embora o que realmente importava.

Há algo de muito raro nisso, porque poucas relações conseguem atravessar tantas fases da vida sem perder densidade. A maioria das pessoas passa. Algumas ficam na lembrança. Mas essas resistem, e mais do que resistirem, amadurecem com a gente.

São também essas pessoas que, lá na frente, acabam dividindo conosco aquilo que a infância nunca imaginou que dividiria: as perdas dos parentes mais velhos, as dores silenciosas da vida adulta, as preocupações com os filhos, os medos que chegam com a responsabilidade, o peso de certas decisões e também as alegrias que só quem conhece a nossa trajetória consegue compreender por inteiro.

Aos poucos, vão ocupando esse lugar raro de quem é ao mesmo tempo amigo, testemunha, porto seguro e quase uma espécie de padrinho não oficial da nossa vida, alguém que não carrega o título, mas carrega a presença, e muitas vezes é justamente isso que mais vale.

Que sorte a nossa quando podemos contar com figuras assim. E, pensando bem, talvez para quem é filho único esse movimento aconteça com ainda mais força, porque o desejo de ter um irmão nasce cedo para muita gente, e cada amizade verdadeira parece tocar também esse lugar. Nesses casos, cada amigo importa de um jeito ainda mais profundo, como se pudesse responder, mesmo sem saber, a uma saudade antiga de algo que nunca se teve por completo.

No fim, talvez a vida também seja isso: aprender a reconhecer como família aqueles que não nasceram dentro da nossa casa, mas que o tempo, com sua sabedoria silenciosa, escolheu manter por perto.

Quem vem à sua cabeça quando você pensa nessa figura?

Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1592 — 03/04/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).