Leopoldo JereissatiFala Man

27 mar 2026 · 2 min de leitura · Jornal da Cidade

Em Ondas

No fim de semana, eu estava na praia, no litoral norte de São Paulo. Choveu demais nos últimos dias, mas, milagrosamente, sábado e domingo amanheceram em céu de brigadeiro. Para os amantes da aviação, CAVOK: teto e visibilidade perfeitos.

Fiquei pensando como é interessante lidar com a incerteza. Será que vai abrir sol para irmos à praia? Sabemos que poucos se animam a descer para o litoral debaixo de chuva. E será que vai dar onda? Eu não surfo, mas vejo amigos passarem a semana inteira inquietos, acompanhando a previsão, tentando adivinhar o humor do mar.

O grande lance é que nem sempre dá certo. Às vezes chove por horas a fio. Às vezes a onda não vem, e os Zé Parafinas ficam quicando de praia em praia atrás de um bom spot. Mas, quando vi duas irmãs gêmeas, cada uma com sua long board, pegando suas ondas e sorrindo uma para a outra como quem diz “olha que incrível isso tudo”, senti uma alegria rara. A conquista parecia maior justamente porque não estava garantida.

Será que não é exatamente esse o ponto? Todo o esforço, a intenção, a expectativa, o deslocamento, a leitura da previsão, a aposta no imprevisível. Talvez seja isso que carregue a experiência de uma energia diferente.

Na ponta oposta, multiplicam-se as piscinas de ondas perfeitas, contadas e medidas para o nível de cada surfista. É impressionante a praticidade: a praia sem maresia, com bons restaurantes e serviços, na Marginal ou a uma hora da capital, sem trânsito. Para quem ama surfar e tem pouco tempo, isso resolve quase tudo.

Mas esse sistema de garantia, de prazer programado, de recompensa sob demanda, faz que tipo de bem e que tipo de mal para nós no longo prazo?

Quão distantes vamos ficando da natureza como ela é, enquanto nos adaptamos a uma realidade cada vez mais controlada? Quão relevante seria ser pentacampeão mundial se a Copa do Mundo acontecesse todo ano, como um campeonato estadual? E quão preenchidos saem os surfistas dessa onda garantida, sem perrengue, sem espera, sem erro, sem mar?

O que vale mais: a onda perfeita ou a espera por ela?

Acho que a força da crônica está aqui: não é sobre surf. É sobre o que acontece com a gente quando troca o imprevisível da vida pela conveniência de experiências editadas.

Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1591 — 27/03/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).