Dar meia-volta também é Progresso
Há textos que não envelhecem, amadurecem.
Relendo "Cristianismo Puro e Simples", de C.S. Lewis, escrito nos anos 1940, em meio às ruínas morais da Segunda Guerra, encontrei uma ideia que soa estranhamente atual. Lewis dizia que progresso nem sempre é seguir em frente. Se alguém pegou o caminho errado, continuar andando só o afasta mais do destino. Nesses casos, o verdadeiro progresso é parar e dar meia-volta.
Essa reflexão encontra eco hoje nas falas de Yoshua Bengio, um dos principais nomes por trás da inteligência artificial moderna. Justamente alguém que ajudou a construir essa tecnologia alerta agora para a necessidade de frear, refletir e buscar consensos. Não por medo do futuro, mas por responsabilidade. Bengio não pede o fim da IA, pede direção.
Vivemos uma era em que avançar virou sinônimo de virtude. Mais rápido, mais potente, mais autônomo. Mas raramente perguntamos para onde estamos indo. Lewis já alertava que a ausência de um norte moral transforma velocidade em cegueira. A tecnologia avança, mas o juízo nem sempre acompanha. A sabedoria está menos na pressa e mais no cuidado.
Talvez estejamos, como sociedade, em um desses atalhos sedutores. Fascinados pela capacidade das máquinas, corremos o risco de terceirizar decisões humanas demais, cedo demais. Nesse cenário, parar não é retroceder. É maturidade. É assumir que nem tudo o que pode ser feito deveria ser feito imediatamente.
Lewis e Bengio, separados por décadas e linguagens distintas, parecem concordar em algo essencial: quando perdemos o rumo, insistir em avançar não é progresso. O gesto mais moderno, paradoxalmente, pode ser o mais antigo de todos: parar, refletir e escolher melhor o caminho antes de seguir.
Bora que o ano já começou! Não, péra.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1580 — 09/01/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
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