Leopoldo JereissatiFala Man

19 jun 2019 · 7 min de leitura · Medium

A Jararaca e o Sabiá

A gente cuida de quem cuida da gente

Hoje de manhã em uma consulta médica encontrei-me, depois de dois anos, com o Doutor. Ele é clínico geral e meu médico desde 2001.

— Você estava no primeiro colegial! Como o tempo passa… Ele dizia.

Rapidamente ele foi folheando cada lâmina do meu histórico médico e fomos conversando, como de hábito, sobre a evolução dos assuntos ali anotados.

— Você está bem? Está com alguma coisa?

— Estou bem sim Dr. Vim fazer Check-up Geral apenas.

Fui para sala de trás, ele me pesou, mediu a pressão, auscultou, apalpou o corpo todo (diagnóstico raiz), deita, olha, levanta, analisa e beleza. Voltamos para a mesa dele.

Enquanto ele prescrevia os exames, começamos a prosear e logo disse para ele que tinham duas coisas que me traziam paz de espírito: voar e ir pro meio-do- mato. — Eu também. Disse ele referindo-se a parte do mato. — Na Bahia, tenho um pedacinho de terra que me deixa muito contente. Fica na beira do rio. Diversas árvores frutíferas. Quando passo por lá carrego a caminhonete com umas dez pencas de bananas e levo para minha sogra. Indignada ela costuma dizer para ele: “Que que eu vou fazer com esse tanto de fruta meu filho?!”. — Se vira. Você não deixou plantar minhas coisas por aqui?! Agora colhe. Diz ele para ela sucessivas vezes ao repetir o ato.

— Quer dizer que tem banana por lá? Continuo…

— Opa… Banana, abacaxis diferenciados que trouxe de outra parte do mundo para testarmos por lá. Tem diversas frutas rapaz. Tenho uma casinha de madeira lá também com minhas ferramentas. O que me pedirem tenho lá. Serras, machados, martelos, o que precisar. Os funcionários ficam doidos comigo. Ando sempre de olho em tudo. Quando vejo as árvores adoecendo, vou logo lá erradicar.

Daí vem a beleza de você fazer o que você gosta. A vida passa a ser vista pela mesma perspectiva dentro e fora do consultório para quem exerce a profissão e a ama há mais de 40 anos. A explicação dele era lógica e descrevia com perfeição a conexão biológica entre a terra, a iluminação natural, a disponibilidade de água, o desenvolvimento das bactérias em volta dos troncos, o corte seco na raiz (literalmente), o fogo para incinerar de vez qualquer possibilidade de avanço daquelas, as cinzas que com o passar do tempo deixavam preto o solo cheio de potássio que voltava para o entorno das árvores e ali surgiam muitas minhocas como consequência para o reinício de um novo ciclo saudável naquele ambiente.

— Também tem muitos passarinhos por lá. Eu adoro passarinhos. Ali tem as condições perfeitas para canarinhos da terra e os sabiás. Coisa mais linda. Sabe que tem uma Sabiá por lá que faz a ninhada dela dentro de um pneu? Algumas vezes por ano ela monta o ninho dela ali e procria. Toda vez que vou lá, limpo direitinho o pneu para que ela possa retornar feliz para o ninho dela. Ali é a casa dela sabe? Ela e os filhos dela vivem todos por ali. Ultimamente tem aparecido um macaco que vem lá da Serra. Os funcionários queriam matar o bicho, eu disse que não. Ao contrário. Montamos um coxo para ele. Lá colocamos frutas e cana de açúcar para que ele possa retornar. As Siriemas é que vivem na **casa **dele. Elas ficam por ali cantando, fingindo que eu não estou lá e eu finjo que não as vejo também. Ali tem muita cobra também. Basta passar por lá que encontramos cascavéis e outras tantas. Tem também uma jibóia amiga minha que não deixo matarem de jeito nenhum. Ela tem a largura do seu braço. Ela come outras cobras e come ratos também aos montes. Vira e mexe eu a vejo por lá. Você sabe que agora, na minha última visita, eu estava plantando uma muda de pimenta do reino. Eu adoro pimenta do reino, eu a planto por onde posso e adoro por a mão na terra e plantar eu mesmo as coisas. Eu começo e mostro o caminho para os funcionário e aí dali eles continuam.

— Eles sempre recomendam que eu ponha a luva em função de termos tantas cobras por lá. Bom, to ali mexendo e passando a mão no entorno da muda agachado, quando no que eu ia encaixando a muda no buraco que fiz na terra, veio um Sabiá gritando e avançou de bico no meio do meu peito com tudo. Eu logo caí para trás. Fiquei inconformado com o ataque do Sabiá e esbravejando para o meu funcionário sem saber o que estava se passando tamanha a ingratidão do bicho, e ele me disse:

— Olha ali Doutor! Ali na frente! E uma Jararaca me encarava de frente com a língua de fora balançando de um lado para o outro. Assim que me afastei dali, a Sabiá pousou no meu ombro. Minha parceira. Ela veio me avisar do perigo. Eu conto para minha sogra essa história ela diz: “Vá passear vá…” — ninguém acredita.

Eu acredito. Nesse momento toca o meu telefone. Era a minha avó. Pensei algumas vezes se a atendia ou não, pois estava em uma consulta. Mas ela anda sensível pois com 93 anos acabou de ficar viúva pela segunda vez. Na segunda-feira de madrugada, faleceu o Sr. Philip, Canadense de 86 anos casado com ela desde 2005. Nós costumávamos sentar na sala da casa dela e juntos tocarmos viola. Nós dois tocávamos (Vô e neto) e a Vó cantava. As filhas dele me deram sua viola de presente.

— Alô! Bença Vó.

— Meu filho, que coisa mais linda que você me mandou. Eram três da manhã hoje quando me despertei e não conseguia mais dormir. Tava com um aperto no meu coração ali sozinha. Havia uma luz no meu celular, apertei sem querer pra ver se apagava (notificação do whatsapp) e entrou um video seu tocando a Viola do Philip. Assisti não sei quantas vezes meu filho. Muito obrigado por tudo o que você está fazendo por nós…

Como pode alguém agradecer tanto a gente assim. Eu nada fiz comparado com todo o carinho que ela nos deu na infância, levando mingau de farinha láctea na cama para nos acordar no frio e tomarmos café-da-manhã sem sair da coberta, fazia sopa-de-pão (pão francês com manteiga mergulhado no café com leite), brigadeiro de nozes, contava não sei quantas vezes a história da “Mimi, do Lelé e do Cri-Cri”, uns gatinhos que viviam embaixo do pé de carambola do sítio. Nos ensinou a ler e escrever com 5 anos, muito antes do pré-primário (com 7 anos à época) quando outras crianças aprendiam. Nos ensinou a dançar, pois na vida “quem não souber dançar, dança!” — ela dizia. Nosso interesse pela música e pela arte, vem tudo dela. Hoje tenho um negócio criativo que emprega quase 40 pessoas e prospera da arte, do design gráfico.

93 anos fazendo arte por aqui…

A natureza é assim não é mesmo? Quem planta colhe. Um cuida do outro. Somos todos Sabiás na sua jornada Vó.

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Ps: Deixei grifado Casa pelo significado filosófico por trás da etimologia dessa palavra. Para quem se interessar em filosofia… O tema apareceu durante uma exposição do professor Oswaldo Giacóia de um texto de Martin Heidegger. Nesse texto ele colocava em destaque algumas acepções da palavra casa, ou lar, recorrendo aos termos alemães correspondentes. O problema refletido por Heidegger era o da ‘apatridade’ (da alienação humana, entendida como perda da pátria). Pátria, em alemão, é Heimat, que deriva de Heim (morada, lar, casa). Portanto, a superação da alienação — que é a condição em que vivemos, uma vez que estamos mergulhados nas diferentes modalidades de existência não autêntica — seria como um retorno ao lar, uma volta para casa (portanto, uma reconquista da pátria, da habitação originária, do solo onde nascemos). Todas essas acepções ressoam na célebre expressão cunhada por Heidegger: “a linguagem é a casa do Ser”. Para ele, o homem habita, mora, na linguagem, portanto, na casa do Ser. Recuperar esta condição — ou seja, a correspondência entre o Ser e a essência do homem, e é isso que quer dizer pensamento, para Heidegger, uma vez que este está sempre ancorado na essência da linguagem — é, então, algo análogo a um retorno a um autêntico Si-Próprio — metaforicamente falando, nossa casa, nosso lar e abrigo originário.

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