Leopoldo JereissatiFala Man

11 set 2026 · 2 min de leitura · Jornal da Cidade

Tudo ao mesmo Tempo

Da janela do escritório eu vejo a Avenida JK. Centenas de carrinhos indo e vindo. Gente voltando para casa, indo para uma reunião, buscando um filho, fazendo uma entrega. Cada carro com uma história lá dentro.

Um pouco mais para cima, os aviões passam um atrás do outro, descendo para pousar em Congonhas.

Do outro lado, uma obra enorme sobe no meio da cidade. Guindastes, máquinas, concreto, eletricidade e um monte de gente trabalhando. Fico pensando na quantidade de coisas que precisam funcionar juntas só para um prédio ficar de pé.

Aí me veio uma imagem completamente diferente.

Nesse exato momento, lá no rio Juruena, aquela cachoeira enorme que eu vi continua caindo. A água bate nas pedras, oxigena o rio e segue seu caminho. Embaixo dela, os peixes continuam nadando e crescendo. A floresta continua viva. Tudo funcionando também.

Aqui, um guindaste levanta toneladas de concreto. Lá, a água despenca sobre as pedras. Aqui, um avião pousa. Lá, um peixe sobe o rio.

Parece que são dois mundos opostos. Um feito por nós e outro que já estava aqui muito antes da gente. Mas, olhando bem, os dois têm alguma coisa parecida. São cheios de movimento, encontros e pequenas coisas acontecendo ao mesmo tempo para que o todo funcione.

E até a diferença entre eles já não é tão grande assim. Na última vez que olhei aquele céu estrelado no meio da floresta, havia satélites passando lá em cima. Antigamente a gente apontava: “Olha, um satélite!”. Hoje passam vários.

Talvez o mais incrível seja justamente isso: a gente se acostuma com o incrível.

Um avião de toneladas voa sobre a nossa cabeça e a gente nem olha. Uma cachoeira despeja água dia e noite e parece normal. A cidade funciona. A floresta respira. O rio corre. A Terra gira. Tudo ao mesmo tempo.

E nós estamos aqui, por um tempinho, no meio disso tudo.

Talvez viver bem seja também não deixar o extraordinário virar comum demais.

Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1615 — 11/09/2026, p. 2. Ver a edição (PDF). Também no canal do WhatsApp.