O Caderninho
Descobri com o André Held, meu primo, que existe nome para uma coisa que nossos avós provavelmente faziam sem saber que estavam na moda: BuJo, abreviação de Bullet Journal. Basicamente, um caderninho pequeno que você carrega por aí e vai anotando as coisas ao longo do dia. Tarefas, ideias, compromissos, uma frase que ouviu, alguma coisa que não quer esquecer.
Achei curioso isso estar voltando justamente agora, em 2026, quando temos inteligência artificial escrevendo, resumindo reuniões, organizando agendas, respondendo e mails, criando imagens e, daqui a pouco, provavelmente lembrando por nós daquilo que esquecemos. No meio de tudo isso, uma das tendências do momento é andar com um caderninho no bolso. Papel e caneta.
Talvez não seja coincidência. Recentemente comecei uma lista de grandes livros que quero atravessar ao longo da vida. São mais de 600 obras, a Bíblia ficou hors concours e, em primeiro lugar, apareceu Ética a Nicômaco, de Aristóteles, um livro escrito há mais de dois mil anos a partir de uma pergunta que continua bastante atual: o que é uma vida boa?
Uma das respostas de Aristóteles é que uma vida boa não é exatamente uma coisa que acontece com você. É uma coisa que você pratica. Ninguém se torna generoso porque entendeu intelectualmente a generosidade, assim como ninguém vira corajoso lendo sobre coragem. É preciso praticar. Aos poucos, aquilo que fazemos repetidamente vai virando hábito, o hábito vai moldando o caráter e, quando percebemos, somos em boa parte aquilo que repetimos.
Séculos depois, Santo Agostinho, que aparece em sexto lugar na mesma lista com suas Confissões, complica um pouco a história. Se sabemos o que é certo, por que tantas vezes fazemos o contrário?
Agostinho percebeu algo profundamente humano: nosso problema nem sempre é amar coisas ruins. Muitas vezes é amar coisas boas na ordem errada. Trabalho é bom, dinheiro é bom, reconhecimento é bom, prazer é bom, família é boa. O problema começa quando uma dessas coisas ocupa um lugar maior do que deveria e, quase sem perceber, a vida inteira começa a entortar em volta dela.
Foi aí que comecei a achar esse tal caderninho mais interessante. Porque no celular eu já registro tudo o que preciso fazer. Comprar ração, responder fulano, marcar dentista, ligar para o banco, reunião às 14h. Talvez o caderno possa servir também para registrar, no meio dessas coisas absolutamente banais, algumas perguntas que normalmente não entram na agenda.
Fui paciente hoje? Dei atenção de verdade aos meus filhos? Fiz alguma coisa só para ser reconhecido? Evitei alguma conversa por falta de coragem? O que ocupou minha cabeça hoje muito mais do que merecia?
De repente, aquele caderninho que parecia uma ferramenta de produtividade começa a funcionar também como uma espécie de exame de consciência. E talvez seja justamente por isso que papel e caneta estejam voltando agora.
Quanto mais a tecnologia consegue fazer por nós, mais evidente fica aquilo que não dá para terceirizar. Uma inteligência artificial pode organizar minha agenda, lembrar meus compromissos, resumir os livros que quero ler e provavelmente me ajudar a tomar decisões melhores. O que ela não consegue decidir por mim é que tipo de pessoa eu quero ser e, talvez mais difícil ainda, quais coisas realmente merecem ser desejadas.
Aristóteles diria para prestar atenção naquilo que fazemos repetidamente. Agostinho, naquilo que amamos. No fim do dia, talvez o caderninho sirva justamente para observar as duas coisas. Algumas páginas rabiscadas, tarefas feitas, outras adiadas, uma ideia que apareceu no meio da tarde, alguma coisa importante circulada e, escondido entre tudo isso, um pequeno registro de quem fomos naquele dia.
Daqui a alguns anos, a inteligência artificial provavelmente fará quase tudo melhor do que fazemos hoje. Mas escolher quem queremos nos tornar ainda vai continuar sendo trabalho nosso. E para isso, quem sabe, um caderninho e uma caneta já sejam um bom começo.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1610 — 06/08/2026, p. 2. Ver a edição (PDF). Também no canal do WhatsApp.
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