Hyperfantasia & A-Fantasia
Tem gente que fecha os olhos e vê um filme inteiro acontecendo na cabeça. Cor, textura, movimento, cheiro, memória. Quase um cinema IMAX privado rodando atrás da testa. Outros fecham os olhos e não aparece nada. Zero. Escuro absoluto. E o mais curioso é que ambos passam a vida inteira acreditando que o outro funciona igual. Talvez aí more uma das maiores confusões humanas: achar que consciência é padrão de fábrica.
David Eagleman fala sobre isso como quem abre uma parede escondida da mente. Uns vivem dentro de imagens. Outros dentro de palavras. Outros dentro de sensações. Tem gente que pensa como arquiteto. Tem gente que pensa como poeta. Tem gente que parece um Excel emocional ambulante. E talvez seja por isso que tanta conversa dá errado. Um descreve uma floresta. O outro recebe apenas um conceito chamado “árvore”.
A hyperphantasia parece um superpoder até você entender o preço. Quem imagina demais sofre duas vezes. Sofre pelo que aconteceu e pelo que ainda nem aconteceu. O cérebro vira simulador de tragédia, replay de vergonha, projeção de medo. A mente cria futuros inteiros sem pedir autorização. Já quem vive sem imagens talvez carregue menos ruído emocional. Menos cinema. Menos tempestade. Menos fantasmas andando no corredor da madrugada.
No fundo, talvez Deus tenha feito os seres humanos assim para lembrar que ninguém enxerga exatamente o mesmo mundo. Nem sentado lado a lado. Nem dormindo na mesma cama há 40 anos. Cada cérebro traduz a vida num idioma diferente. Tem gente que ama por imagem. Tem gente que ama por presença. Tem gente que lembra do rosto. Outros lembram da sensação. Outros lembram da frase dita num almoço qualquer de terça feira.
E talvez maturidade seja justamente isso: parar de presumir que o outro sente, vê e interpreta a vida igual você. Porque às vezes aquela pessoa que parece fria só não produz filmes mentais. E aquela outra que parece exagerada talvez esteja vivendo incêndios inteiros dentro da própria cabeça. No fim, somos todos operadores tentando pilotar universos internos que ninguém mais consegue visitar por completo. Talvez amar alguém seja exatamente isso: respeitar o fato de que existe um cosmos inteiro ali dentro que você nunca verá totalmente.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1598 — 15/05/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
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