O Humano em Cópia
Os agentes de IA estão entrando no trabalho e nas nossas casas numa velocidade impressionante.
Há poucos meses, montar um agente ainda parecia complexo. Hoje, já vemos e mails, apresentações, documentos e respostas inteiras sendo delegados a eles. E o mais estranho não é só a eficiência. É a sensação de que ninguém mais está lendo. Nem quem envia, nem quem recebe.
O trabalho começa a virar uma esteira de arquivos produzidos para outros arquivos, com a esperança de que o prompt foi bom o bastante e de que a chance de erro continua aceitável.
Mas o desconforto maior não é só perder controle. É perder vínculo.
Parece que já não estamos mais falando com pessoas, mas com seus assistentes virtuais. Como se, em vez de participar da reunião, cada um mandasse alguém em seu lugar. Alguém rápido, educado, capaz. Mas sem presença. E sem presença, cultura nenhuma se sustenta.
Na pandemia, já tivemos uma prévia: ficamos mais produtivos, mas também mais cansados, mais soltos e mais descartáveis. Agora, com agentes, o risco aumenta. Antes trabalhávamos à distância. Agora começamos a trabalhar por procuração.
O mercado está confundindo as funções. Em vez de usar máquinas para executar e liberar humanos para pensar melhor, estamos tentando fazer o contrário: colocando as máquinas para pensar e a gente para executar.
Só que contexto, repertório, curadoria, bom gosto, senso estético e visão estratégica não são detalhe. São justamente o que mais deveria ganhar valor agora.
No fim, o problema não é conversar com máquinas.
É quando os humanos deixam de se encontrar.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1594 — 17/04/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
Uma crônica por semana, direto no seu WhatsApp. Sem spam, sem pressa.
Seguir o canal