Pistache
Tem alguma coisa curiosa nesse tal do pistache.
Quando criança, a gente adorava abrir a casquinha para comer aquela coisa verdinha de dentro. Era quase um brinquedo: achar a fenda certa, forçar com a unha, ouvir o estalo, e descobrir aquela pepita verde, pequena, rara, como se tivesse prêmio dentro.
Quando adulto, a gente gosta do sorvete, do pudim (essa foi uma descoberta deliciosa recente), e também dos melados doces árabes. Ele tem esse talento de ficar na boca mais tempo. Não é um sabor que passa correndo. Ele chega, se instala, e parece que deixa a sobremesa mais elegante do que ela era cinco segundos antes.
Quando você chega numa casa e encontra pistache servido como aperitivo, ou a família anfitriã é de descendência libanesa, ou o ambiente é chic, ou as duas coisas juntas. O pistache virou um símbolo, quase um código social. Como quem diz: aqui tem cuidado, aqui tem detalhe, aqui tem capricho.
A verdade é que eu encontrei no pistache um pequeno prazer cotidiano. Compro uma lata grande, e consumo com meus filhos à noite e nos finais de semana. E o mais curioso é que o pistache não é um snack rápido. Ele não se entrega fácil. Tem casca, tem trabalho, tem tempo. Você não come no automático. Você participa.
Para eles, é um prêmio. Eles escutam o barulho do papai chegando e a lata batendo, e já vêm correndo pegar o deles antes da bronca da mãe. E esse som virou senha de casa. Tem coisa que é silêncio. Pistache não. Pistache tem trilha sonora: a lata, o farfalhar, a casca estalando, a risada contida.
A bronca vem para mim, porque é hora do jantar deles. E vem para eles também, que me olham com carinha de arteiros e parceiros dessa travessura semanal. É uma transgressão pequena e segura. O tipo de arte que não estraga nada, só tempera a rotina.
A mamãe reclama e depois pega uns dois para ela também. Porque no fundo ela entende: não é só sobre comer. É sobre estar junto. É sobre dividir. É sobre aquele minuto em que a família vibra.
O pistache não é só um sabor. É um rito. A casca vira desculpa para a gente ficar junto, dividir, fazer arte e depois voltar para o jantar como quem volta do recreio.
E você, qual é o seu pistache?
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1589 — 13/03/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
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