Vestiário de Clube
Tem lugares que não mudam. Você pode trocar o país, a década, o corte de cabelo e até a moda do tênis, mas eles ficam.
Um deles é o vestiário de clube. O masculino, pelo menos. O meu. Com exceção dos meus menos de cinco anos, quando eu ainda entrava com a minha mãe no dela. Anos 80. Tempo bom. E estranho, olhando agora.
No vestiário tem o tio da toalha e do sabonete. Quem esquece, paga. Nunca entendi se ele acerta no caixa 1 ou no 2, mas que ele acerta, acerta.
Tem os armários enfileirados, cada um com seu cadeado e seu dono. Os melhores pontos, como na cidade, ficam com os mais antigos e influentes. Localização é destino, até dentro do vestiário.
Debaixo dos armários, tênis sujo de saibro do lado de chuteira. Em cima, raquetes, perfume, roupa amassada,
desodorante, ritual. Cada um com a sua liturgia.
Na pia, o secador de cabelo que não seca só cabelo. E aí você percebe: com o tempo, tudo vai murchando um pouco, os patrimônios da frente e as bochechas do bumbum lá atrás. Não é bonito. Mas é verdade. E o vestiário não finge que não é.
Tem a balança também. Metade sobe de toalha. Metade vai nu, porque quer saber a verdade inteira. Gramas viram vitória.
Os chuveiros reservados quase sempre vazios. E os chuveiros em frente ao espelho, esses sim, cheios. Ali não se resolve nada. Só se confirma a vida: conversa fora, piada antiga, risada nova. E, por alguns minutos, os velhotes voltam a ser meninos.
Como os horários batem, as caras se repetem. De tanto se ver, vira conhecido. De tanto ser conhecido, vira companhia.
A gente entra sujo de suor. E sai de alma lavada.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1587 — 27/02/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
Uma crônica por semana, direto no seu WhatsApp. Sem spam, sem pressa.
Seguir o canal