Pertencer
Do latim pertinēre (per = intensivo; tenēre = segurar, manter), é estender-se até algo a ponto de fazer parte daquilo. Pertencimento, portanto, é o estado ou o efeito dessa ligação essencial. Belonging, no universo anglo-saxão, fala de encaixe. Carrega a mesma raiz, mas acentua a sensação profunda de estar exatamente onde se deve estar.
Você já se sentiu assim? Parte de um todo a ponto de nem notar? Na família, em casa, no trabalho ou até dentro da sua própria pele? E já se sentiu o contrário? Desencaixado, deslocado, estranho, tentando caber num lugar que não acolhe o seu jeito de existir?
Em uma emocionante cerimônia judaica chamada brit-milá, presenciei um momento íntimo e poderoso. Para mim, tudo era novidade; para eles, tudo era natural. Ali, o pertencimento não era explicado, era vivido.
Numa partida de golfe em Arujá/SP, 90% dos jogadores eram asiáticos. Ali, lamen no bar do clube não era exotismo, era cotidiano. Havia um hospital nippo, um country club nippo, uma estética nippo. Detalhes que fazem sentido para quem é dali.
Em São Paulo, no Clube Monte Líbano, pedir zaatar ao garçom é tão trivial quanto pedir sal em outro lugar. Comprar algo para viagem e ganhar pão sírio torrado na sacola não é mimo: é cultura. No “quilão”, quibe cru, coalhada, homus e baba ganoush dividem espaço com arroz, feijão e farofa como se fossem irmãos.
É assim que o mundo nos diz, silenciosamente, quem somos e onde estamos.
Visitei uma escola internacional e me emocionei com disciplina, fluência, organização, crianças fofíssimas falando inglês. Saí de lá admirado, mas inquieto. Percebi que, na minha busca pelos meus filhos, talvez falte algo que não se ensina em Cambridge ou IB: brasilidade. Um idioma emocional, não verbalizável, mas sentido.
Pertencer é isso: não se explica, se reconhece.
No oeste de Santa Catarina, passa-se nata no pão; no Ceará, tapioca não é fit, é tapioca; no Mato Grosso do Sul, o chimarrão vira tereré; e quanto mais sobe a temperatura do clima, mais baixa a da água na cuia. É o "quê" que a baiana tem e que ninguém consegue copiar.
Passamos anos buscando diversidade e ela realmente nos expande. Mas existe um outro prazer, tão legítimo quanto esse: o de caber. O de estar entre os seus. O de compartilhar hábitos, crenças, temperos, ritmos, sotaques e silêncios. O de encontrar quem entende suas manias antes que você as explique.
Tem quem goste de rock, de samba e de samba-rock. Tem quem goste de tudo. Tem quem não goste de nada. Mas todos, no fim, buscam um lugar onde possam respirar sem pedir permissão para existir.
Nietzsche sintetiza essa jornada em uma frase que não envelhece: “Torna-te quem tu és.”
Pertencer talvez seja exatamente isso: voltar para casa mesmo que essa casa ainda não exista, e sejamos nós os responsáveis por construí-la.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1576 — 05/12/2025, p. 2. Ver a edição (PDF).
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