O Vazio, o Vento e o Valor
Outro dia, andando pelo campo aqui em Holambra, me peguei pensando numa palavra que, de tão pesada, quase ninguém ousa pronunciar: niilismo.
Calma, leitor, eu prometo que essa crônica não vai virar aula de filosofia — pelo menos não daquelas que fazem a gente dormir. Quero só te convidar pra uma caminhada breve. Prometo: sem pressa e com café no fim.
Você já sentiu que está fazendo tudo certo… mas algo ainda falta? Acorda, trabalha, responde WhatsApp, cuida dos filhos, paga boletos — e mesmo assim algo parece meio… vazio? Pois é. Nietzsche diria que você está começando a encarar o niilismo existencial. Não é doença, não. É só aquela sensação de que estamos em uma roda viva, sem saber por quê.
O filósofo alemão acreditava que, quando Deus morre (ou seja, quando os antigos valores perdem o peso que tinham), a gente entra num terreno baldio da alma. Mas ele também dizia que é aí, nesse vazio, que nasce a chance de criar algo novo. De plantar sentido, como quem planta tulipas num terreno árido.
Numa conversa famosa com um pensador japonês, Heidegger — outro desses filósofos de nome difícil — disse que a linguagem é a casa do ser. E que o silêncio diz muito. Os orientais concordam. No Zen, por exemplo, não se trata de entender tudo com palavras, mas de sentir o vento passando entre as folhas, estar presente no agora e deixar que a vida flua, mesmo sem manual de instruções.
O budismo vai além: tudo é impermanente. Tudo muda. Não adianta tentar segurar o tempo com as mãos. Melhor abrir as mãos. Melhor abrir o coração.
E aqui, olhando os campos de Holambra, talvez a gente possa aprender isso com a terra. As flores não têm pressa. Elas nascem, murcham, voltam. Elas não perguntam: “qual é o propósito de tudo isso?” Elas apenas são. E nisso, talvez, more um grande segredo.
Então, se você está meio perdido, cansado, sentindo que o mundo está rápido demais — respira. Pega uma xícara. Olha pro céu. Escuta o silêncio. Pode ser que ele esteja querendo te dizer algo.
Ou não.
E tudo bem também.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1550 — 06/06/2025, p. 2. Ver a edição (PDF).
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