Ame, e faça o que quiser
Minha avó era apaixonada pela vida. Nos ensinou a ler, a escrever — e a arredondar, em incontáveis cadernos de capa azul-clara, nossa caligrafia.
Pôs a gente pra andar, correr, cantar e dançar: “— Põe a mão aqui na minha cintura, ó. Dois pra lá, um pra cá.”
Nos ensinou a tocar instrumentos como o piano e o violão: “— É simples, Leopoldinho: sobe, meio, desce. Com esses três acordes você toca um monte de músicas. Vamos lá: fizémo a úrtima viági… [sobe] foi lá pro sertão de Goiás… [desce] fui eu e o Chico Mineiro…”
Minha avó gostava da vida simples. Do sítio. Das pessoas que trabalhavam com ela. Das amigas. Das filhas. Dos genros. Dos maridos. Dos netos. E também gostava dela. “A gente precisa se amar primeiro”, dizia ela.
Também adorava um luxo… o poder… a política. Sabia saborear um bom prato de feijão com arroz — e depois, um marzipã europeu de sobremesa. Andava de sandálias e camisolas pela casa, com um relógio de ouro e couro no pulso. Era um misto de Papa Francisco com Rainha Elizabeth — esse era o mood dela.
Mulher sábia. Pra frente. À frente do seu tempo. Quando penso que ela viu o último século com os próprios olhos — e soube sobreviver ao tempo, aos ventos, aos altos e baixos da vida — sinto um orgulho que enche o peito. Obrigado, Deus, por quase 40 anos de convivência. Quase 98, Dona Ilda.
Ninguém é perfeito — ela também não era. Mas era forte.
Firme.
Decidida.
Inteligente.
Articulada.
Querida.
Alegre.
Sorridente.
Professora.
Esposa.
Mãe.
Vó.
Viúva.
Esposa de novo — de um canadense que conheceu pelo ICQ, aos 70 e poucos. Viúva de novo. Quanta força.
Em seu enterro, estavam todos os seus núcleos: Gente de Capivari, Campinas, São Paulo, Valinhos, Vinhedo — e, claro, de Holambra. Família de sangue, de coração, filhos e netos de amigos que já se foram, mas que sabiam da admiração de seus pais por ela.
Veio parente distante que brincava no sítio com seu filho emocionado. Veio a turma da porcelana.
Minha avó se foi vestindo o terninho da turma da porcelana. Roupas escolhidas com carinho por Roberta, sua neta — para quem vai aos céus fazer arte. “Ela agitava onde passava”, dizia Dona Isabel, amiga querida com seu sotaque charmoso em portunhol.
Ela foi descansar. Missão cumprida. Essa viveu. E você? Tem alguma história com a Dona Ilda pra contar pra gente?
A bênção, Vó.
Obrigado por tanto.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1547 — 16/05/2025, p. 2. Ver a edição (PDF).
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