Leopoldo JereissatiFala Man

7 mar 2024 · 6 min de leitura · Jornal da Cidade

1927

Holambra em 1986 — Vó Bi, André, Leo, Veri e Roberta (no colo da Dona Ilda — nossa avó)

Permita-me contar-lhe a história de uma mulher moderna. Uma moça generosa que vive a frente de seu tempo e que colhe hoje o que plantou durante décadas de dedicação às pessoas com quem convive, à família e a Holambra. A história é da Dona Ilda, uma perspectiva apenas, de seu neto mais novo; a minha.

Tem 38 anos que acompanho a trajetória de minha avó que no auge de seus 96 (ela vai ficar brava comigo que entreguei a idade dela aqui) continua sendo a grande referência para suas filhas Silvia e Beatriz, e seus netos André (o preferido), Veridiana (a preferida), Roberta (quem resolve tudo na família e agora perambula pela cidade descobrindo as novidades que podem interessar os turistas quem atrai para o Sítio) e Eu — Leopoldo.

Fui alfabetizado aos cinco anos por ela. Inúmeros cadernos de caligrafia que não consegui aperfeiçoar como as lindas curvas que ela modelava entrelinhas mas que me deixaram em boa vantagem desde pequenininho. Pessoal ficava impressionado e viviam me perguntando :

— Quem te ensinou a ler e a escrever assim tão cedo?

— Minha Vó Ilda. Ela é professora (enchia a boca de orgulho para contar aos outros que ela lecionava).

A educação sempre foi tema importante em casa, tanto que sua filha mais velha, Silvia, é graduada, mestre, doutora e livre-docente. Dedicou sua vida toda para a educação. Seu filho André segue a mesma trilha pelo jeito no ramo dos dentistas. Pensando aqui, talvez você ou algum de seus pais devem ter sido atendidos por ele em Holambra quando iniciou sua carreira, atendendo em regime de “home-care”, nas casas para facilitar a logística para seus pacientes.

Paciência minha avó já nunca teve muita. — Anda! Levanta! Vá! Pegue! Traga! Ela tem esse dom de não deixar ninguém parado nunca. O motorista vira jardineiro, a cozinheira aprende a pintar porcelana, o segurança é especialista em produzir tamancos e assim vai.

Minha avó gosta de aventuras, e minha mãe Bya é um prato cheio em sua biografia para isso. Minha avó é vaidosa, minha mãe também. Tão parecidas que vivem se amando e se cutucando. Vão testando o limite uma da outra até que logo vem um característico:

“— UH! Não me encha os pacovás” — e tudo fica em paz de novo, por alguns minutos.

Algumas coisas não mudam com o tempo, como por exemplo o seu amor pela raça Pastor-Alemão. Não sei quantos destes já se passaram em sua casa em Campinas e nos limites do sítio. Seu amor pela arte, pela porcelana, imagino que tenha passado por todas as disciplinas e aterrizou na queima de vidros. Eu vivia fuçando naquele forno e ouvia de longe:

— Sai daí menino! Vai se queimar! Esse forno gasta uma energia que tá louco!

Minha avó nunca se conformou com os custos das coisas. Nos ensinou a trabalhar duro e a poupar sempre. Agora em uma nova fase da vida, bem de leve ela soltou:

— Eu agora quero aproveitar, vocês que se virem!

Astuta, esperta, estratégica, minha avó sempre conseguiu de nós o que para ela fosse importante. Tempo, atenção, que estudássemos, que cantássemos e tocássemos algum instrumento. A ela devo também meu amor pela música caipira. Ela pegava o violão, me punha na frente, tocava e cantava:

“ — Fizémo a úrtima viáge, foi lá pro sertão de Goiás…”

Cantávamos várias dessas modas, e mais velho ela me passava o violão e dizia:

— Pra cima, pra baixo e no meio. Só isso que precisa saber e vai tocar um monte de músicas boas.

Ela também tem esse dom de simplificar as coisas da vida. Para tudo há uma solução prática, alguém que ela possa pedir para ajudar a fazer acontecer. Não existe não dá. Sempre deu.

Assim ela também participou de não sei quantas ExpoFloras e nos colocou para vender os tamanquinhos nas barracas. Tinha ano que ela não entrava, não por falta de vontade, mas de dinheiro. Nem sempre o que o Sítio gerava cobria as despesas do estande e da produção. Mas sem que ninguém percebesse ou soubesse, ela dava um jeito e logo apareciam caminhões de argila descarregando e o pessoal se preparando para o próximo evento.

Lente de Criança

Quando nos visitava em São Paulo, onde nasci e moro até hoje, nos despertava as 6h da manhã com um abraço quentinho e uma sopinha de pão. Pedacinhos de pão francês com bastante manteiga, mergulhados no café-com-leite. A manteiga era tanta que boiavam bolinhas amarelas no girar da colher na cumbuca até chegar suavemente e minha boca ainda adormecida, no transe de uma criança preguiçosa para se levantar para ir a escola. No dia seguinte era Farinha Láctea, gemada, bolinhos e biscoitos. Minhas lembranças giram em torno da comida e de um pé de jatobá do sítio Santo Antônio com duas balanças em longas correntes. Também as histórias da Gatinha Dona Mimi e seus filhinhos Lalá, Lelé, Lili, Loló e Lulu, embaixo do pé de carambola. Ela usava esse gancho para nos dar lições do que era moralmente certo ou não.

Lente Adolescente

Adolescente vi minha avó, viúva já há mais de vinte anos do meu avô Gerson, quem não tive o prazer de conhecer mas com quem decidiu comprar a propriedade na então recente região, se apaixonar de novo. Pelo ICQ. Pasmem. Um canadense, Sir Philip ou Pílipe, como o chamávamos, caiu nos encantos e histórias da minha avó, vendeu suas coisas no Canadá e veio de mala e cúia viver esse grande amor, também pela segunda vez. A Vó tinha uns 70 anos já nessa época eu acho. Lição aprendida: sempre há tempo para amar!

Lente Adulta

Tem um conceito que aprendi durante a pandemia, sobre o poder de influenciarmos milhares de pessoas através da história, ou ponto de vista, de uma pessoa apenas. Por alguma razão, é mais fácil de nos engajarmos, de entendermos e criarmos empatia quando falamos de um a quando falamos de muitos.

Por isso falar da Dona Ilda, é falar com a Dona Ilda que existe em cada uma de vocês mulheres Holambrenses fortes, modernas e a frente do tempo, como ela é.

Cai uma lágrima aqui do meu olho de alegria nesse momento pois a vida é assim… Vive pregando peças na gente. Assim, de uma forma leve e agradável como as crônicas que sempre escreveu, espero poder honrar o seu legado aqui no Jornal da Cidade de Holambra, a pedido da gentil e carinhosa Leila, com quem pouco conversei mas logo entendi motivo de tão grande afinidade e respeito mútuo entre ela e minha avó.

E você? Qual é a sua história com a Dona Ilda?

Conte para a gente aqui no Jornal que ela vai adorar saber.

Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1488 — 15/03/2024, p. 4. Ver a edição (PDF). Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.