Leopoldo JereissatiFala Man

16 mai 2023 · 3 min de leitura · Medium

Mãe DinA.I

… e o nosso hábito Apocalíptico

Sou da época da Mãe Dináh sabe?! Sim, eu fiquei sem dormir quando ela previu que o mundo acabaria. Caiu uma baita chuva naquela noite e um raio estourou no para-raios do prédio onde eu morava. Foi um chororô danado, os pais viajando, eu e minha irmã sozinhos com a babá — a mais assustada entre a gente. Dia seguinte o sol raiou novamente…

Mãe Dinah

Naquela época se consumia notícias pelos canais abertos apenas, 4–5–7–13 em São Paulo; o resto chiava e entrava um arco-íris corrigindo a imagem da esquerda para a direita quando apertava o botão errado no controle ou a programação entrava madrugada a dentro. Quase vinte anos depois descobri que o chiado é na verdade o barulho do Big-Bang numa aula muito doida e divertida de astrofísica com filosofia e arte, ministrada pelo Faisal.

Aquele monitor trambolho, simplesmente chamado de TV, tinha uma série de desvantagens conhecidas: da oferta baixa de canais a grade rígida de horário da programação — se perdesse o jornal ou novela já era, só dia seguinte. Mas havia uma grande vantagem universal também: sofríamos coletivamente de apenas um grande medo de cada vez.

A chamada “agenda pública”, ou as coisas que a mídia coloca na cabeça da gente, era super controlada e planejada:

  • Semana 1: O mundo vai acabar

  • Semana 2: Maníaco do Parque está solto

  • Semana 3: assim sucessivamente…

Atualmente estamos vivendo um turbilhão de informações de todos os lados, de todos assuntos, com especialistas de tudo que é tema, e nossa cabeça vai enchendo de coisa, começamos a chacoalhar a perna e roer as unhas sem assistir a nenhum filme de suspense e sem conseguir entender mais o porquê das inquietações. Acorda, medita, malha, terapia, trabalha, trabalha de casa, trabalha da praia, trabalha do campo, trabalha remoto, trabalha híbrido, trabalha físico no escritório. Não trabalha. Dá trabalho. Dorme, recomeça.

A crítica ao pensamento mecânico sempre foi pauta de grandes filósofos. O que mudou é que agora a máquina está aprendendo (machine learning) e nós estamos ficando cada vez mais robotizados, mecanicamente embarcados em mundos virtuais e distantes da realidade. Tamo batendo recorde no Candy-Crush enquanto A.I vai se configurando como a grande protagonista das próximas eleições americanas.

Para dar um boom na cuca e se atualizar sobre o impacto da Inteligência Artificial na sociedade, tem quarenta minutinhos de palestra do Harari que resumem muito bem — como de costume — algumas possibilidades que estão por vir, já vieram e que já não podemos controlar mais. O medo se dá porque em resumo, ninguém — nem mesmo aqueles que criaram a parada do AI — sabe tirar mais o brinquedo da tomada.

Segundo Napoleon Hill há apenas seis medos na humanidade:

  1. Medo da pobreza. De acordo com Hill, o medo da pobreza nasce da tendência que o ser humano tem de dominar economicamente os seus semelhantes. …

  2. Medo da velhice. …

  3. Medo da crítica. …

  4. Medo de perder o amor de alguém. …

  5. Medo da doença. …

  6. Medo da morte.

Quando o A.I “digerir toda a informação que temos disponível sobre a história da humanidade”, entender tudo o que nos despertou o medo e foi capaz de nos direcionar para um lado ou para outro como espécie (político/religiosa/prática), ficará demasiadamente fácil para A.I manipular o ser humano de forma geral. Há um apelo desesperado para regulamentarmos asap toda disponibilidade de acesso a essas ferramentas no sentido de preservar a democracia e conseguir com diálogo encontrar lugar comum as necessidades realistas e a hype.

Enquanto isso, daqui do meu cantinho, vou encarando isso tudo com um olhar atento e cético de mais um Apocalipse anunciado. Dia seguinte o sol raiará novamente… pelo menos por mais 6.5 bilhões de anos.

Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.