Leopoldo JereissatiFala Man

15 ago 2021 · 20 min de leitura · Medium

Pantanal

A busca pelo instante único…

— Leo? Tá acordado?

Era por volta de 6h da manhã de quinta-feira, ou melhor, da melhor quinta-feira que eu já vivi.

— Tô! Respondi baixinho…

— Vem aqui dar uma olhada, vem rápido!

Uma voz entusiasmada me chamava, e atravessei pela varanda da sede da fazenda — de pijama, havaianas e colete — até a outra ponta da casa onde o sol começava a raiar. Uma bola de fogo vermelha-alaranjada subia o céu em poucos mas longos minutos em que pude observar, sem piscar, a luz que emanava dali. Parecia uma gema de ovo caipira mesmo subindo.

— “Quando você fizer uma casa, escolha deixar a luz do sol da manhã entrar pela janela do seu quarto; isso vai mudar o seu dia”

Deixa eu começar do começo.

Estava buscando há algum tempo projetos que pudessem conectar mais nossa empresa e família com o meio-ambiente. Especialmente com a chegada da diretora de talentos da All Set, a Fernanda, que é bióloga de formação e apaixonada pela fauna e a flora somado ao período que passamos presos aqui na Selva de Pedra, eu e minha mulher, em função da pandemia. Olhando pelo lado cheio do copo, essas reuniões virtuais que surgiram na ausência do encontro, facilitaram a conversa e a escuta de gente comum com gente interessante. Foi assim, em um desses Zooms, que eu conheci a Teresa.

Enquanto escutava sua fala sobre o Pantanal e sobre a importância da mensagem de um documentário que ela buscava viabilizar sobre as queimadas, na minha cabeça vinha a primeira aula do curso da Dani — Legado, que nos ensinava a importância de saber formular uma boa pergunta para que esta de fato fosse respondida pelo interlocutor. Quando abriram os microfones, o facilitador disse:

— Alguém tem alguma pergunta? Gostaria de tirar uma dúvida?

Ficou um silêncio e, nessa brecha, “levantei minha mão” com certo frio na barriga, perguntei:

— __________________________?

Antes de me responder ela devolveu outra pergunta simples e muito mais importante:

— Você conhece o Pantanal?

Envergonhado, eu disse que não. Que conhecia sim o Mato Grosso do Sul, a região de Dourados e Campo Grande, mas que o Pantanal eu ainda não tinha visitado.

— Esse é o problema. Os brasileiros não conhecem o Pantanal. Os que podem viajam para fora, rodam o mundo e não vem para cá. A grande maioria do turismo é de estrangeiros (pré-pandemia e já retomando a proporção) e aqui está acontecendo um dos maiores desastres ambientais do planeta, pelo assoreamento* do Rio Taquari.

Assoreamento é tipo quando esquecemos de limpar a calha no telhado e a água por não conseguir seguir seu fluxo natural inunda sua sala. No caso do Taquari, o excesso de sedimentação que vem do planalto secou definitivamente seu curso original formando uma imensidão de área inundada na parte baixa, antes produtiva e nobre — atualmente sem valor comercial.

[Foto Rio Seco] + Imensidão alagada

Depois do merecido puxão de orelhas, recebi dela o convite para conhecer o Pantanal.

Sem ter a menor noção da programação que teríamos na semana e com mais quem iríamos viajar, confiei e fui. Era tão pouca informação que eu tinha que minha esposa colocou carinhosamente um bilhetinho na minha mala, escrito a mão que dizia:

Na verdade a mensagem era: “Eu to grávida de 8 meses do seu filho, favor voltar inteiro!”

No saguão do aeroporto, nosso grupo começava a se formar. Cheguei cinco minutos adiantado e lá estava uma senhora nitidamente indo a trabalho. Morou no Pantanal há 30 anos e me dizia: — Você não consegue imaginar o que era aquilo. Minutos depois chega um casal paulistano raíz: coletinho, calça caqui, barba perfeita, tenis dele novinho igual ao tenis dela — só mudava a cor. Sorridente e animada, ela soltou: “Isso que é jeito de começar a semana não é?!” — que energia boa a deles. Em seguida uma outra senhora com cabelos longos e grisalhos, olhos claros, também de colete mas dessa vez um tipo Natgeo; despachada chegou falando alto e com todo mundo. Diversidade: é tão bom ver e poder conviver com isso. O último a chegar era o fundador e responsável por um projeto maravilhoso de preservação chamado Onçafari que logo voltarei a falar sobre.

Viajar é bom. Viajar com quem conhece o negócio e é apaixonado pela região é melhor ainda. Faltavam na turma aqueles que seriam nossa grande companhia no desenrolar da viagem, o casal mais simpático de São Carlos e região: o Ro e a Tita — cujo sobrenome quase bate com o meu apelido, os Jank. O Ro é um cara de quase dois metros de altura, pecuarista, criador de gado leiteiro, precursor do leite A2 no Brasil, empreendedor, pai de três filhas, curioso, trabalhador, canta todas as músicas caipiras que você possa imaginar e canta Adelita também. É paciente, liso, tem oratória, conhece muita coisa sobre a formação dos pastos, de gestão de fazenda, de gado, de gente e ainda fala uns paranauê em tupi-guarani. A Tita é o segredo por trás dessa engrenagem complexa. Ela tem uma alma maravilhosa de alguém que cuida de tudo que é necessário para que a estrela dele, das filhas e da empresa deles continuem brilhando. Sempre que dava, eles entrelaçavam suas mãos, cheias de amor um com o outro.

Logo no primeiro dia nossa turma se dividiu em duas partes e seguimos para a Baía Vermelha. Ficamos juntos eu, Teresa, Ro e Tita. Cara, acho que nunca andei tanto de caminhonete como nesses últimos dias. O Ro ia na frente com os capatazes e gerentes trabalhando e eu ia com elas atrás na “caçamba”, falando sem parar sobre tudo o que vinha nas nossas cabeças. Livros que lemos ou deveríamos ler, fé, valores, marketing digital, natureza, aulas sobre os desafios da paternidade/maternidade que elas me adiantavam e os segredos para manter um bom casamento ao longo do tempo.

“ — O segredo é não dormir brigado”;

“ — Eu colocava o bebê do ladinho da nossa cama, não deixava ficar chorando não”;

“ — Uma boa forma de contar aos seus filhos sobre lições de vida são as fábulas de Esopo entre outros contos. Conhece a do Sol e do Vento?”;

De tempos em tempos iam surgindo uma enormidade e variedade de plantas e bichos pelas invernadas. A Tita manja muito de fazenda também. Ia dando uns toques sobre tudo o que observava. A Teresa é daquelas pessoas que enxerga cada árvore da mata como únicas. Ela se encanta com cada Ipê, mesmo depois de ver centenas deles há dezenas de anos.

Ela bate o olho e sabe dizer se é Acuri, Bocaiuva ou Carandá: “Você tem que perceber a diferença da folhagem Leo, como elas se abrem”; se é capão ou cordilheira também: “se é redondo o formato é um, se é longínquo o outro”. Tem vários Pantanais no Pantanal, é um verdadeiro “monumento natural”.

Ver parte relevante da fazenda queimada em recuperação, não ver mais árvores altas e mata fechada e verde como deveriam estar ali, ver tudo seco novamente e antes da hora, contabilizar todos os bichos que infelizmente morreram com a fumaça e o fogo, tudo isso a machucava demais nos primeiros dias e caminhos que passávamos. Ela cuida de cada detalhe da fazenda, da sede, da colônia e dos retiros.

Retiros são pequenas comunidades espalhadas pela propriedade e distantes da sede — quem mora lá é um “retirante”.

Para fazer sentido tem que ter história, resgatar o que foi, entender o que é e contar para onde está indo. Do jeitinho dela, ela vai passando a visão do que ela imagina para que as pessoas ao seu redor possam pensar a melhor forma de executar e a coisa vai indo muito fluida. Ela tem muita energia, muita mesmo e não tem medo de muita coisa não*.*

A Baía Vermelha, como nos livros e contos do Egito sobre o Nilo, na época das cheias, enche de água as planícies ao seu redor e deixa vida em abundância quando seca. É uma imensa planície delineada pelas “morrarias”, montes que cercam a Baía, uma das mais belas e inesperadas paisagens que encontrei no Pantanal.

Ali vi, em função da seca, a facilidade que os Jacarés tinham para comer os peixes e que a onça tinha para caçar e arrastar jacarés para dentro da mata. Vi pegadas de anta, tuiuiús em seus ninhos gigantes, revoadas de garças e outros pássaros menores. Maitacas, quitas, cardeais, canários da terra, casais de araras vermelhas e canindés (asas amarelas) e também algumas araras azuis. Meus binóculos estavam bombando. Não conseguia desligar o celular e por ele no bolso porque era um encanto atrás de outro. Até então tinha visto cocô de onça, pegada de onça, carcaças que ela havia deixado para trás mas, nada dela. O André, gerente da fazenda dizia:

“ — Nóis não tá vendo ela, mas ela já viu nóis aqui”. Eita…

Voltamos com um pôr do sol encantador. O céu estrelado, o piscar das estrelas, a luz da lua nova, estrelas cadentes em volume. Apesar das raras noites frias do Pantanal que pegamos, eu simplesmente não conseguia fechar as janelas do quarto para dormir. Me embrulhava até as orelhas de coberta e ficava brigando contra o sono para continuar vendo, ao vivo, uma paisagem digna de descanso do Chrome Cast. De repente, na janela brilha uma luz mais forte. E outra. Mais uma. Já não conseguia contar quantas mais: “uma escolta de vagalumes em uma linda noite de luar”.

No terceiro dia da viagem era dia de partir para o próximo destino: Nhecolândia, área entre o Rio Negro e o Rio Taquari. “Nheco”, como era conhecido Joaquim Eugênio Gomes da Silva, tinha tanta terra de um lado, assim como Ciriaco Rondon (da Ciricolândia) de outro, que eles não sabiam ao certo onde começava o território de um e terminava o do outro. Reza a lenda que então Nheco montou em um burro de um lado, saindo da Fazenda Firme em Corumbá em direção ao leste e Ciriaco montou em outro saindo da Fazenda Rio Negro (aquela da novela Pantanal que agora será regravada) em direção ao oeste, e cavalgaram dias em direções opostas até que se encontraram em um ponto e ali demarcaram a divisa das terras que hoje separa Corumbá de Aquidauana.

Do ponto onde parti na divisa com a Bolívia, avistei de cima a Lagoa Mandioré e a linda Serra do Amolar. Mesmo nesse período antecipado de seca (o pior ainda está por vir nos próximos meses de setembro e outubro) sobrevoamos água atrás de água cristalina. “ — É como um filtro natural de água, aqui já não há mais quase sedimento, repara como a água vai ficando turva a medida que formos subindo o curso do Rio.” E o caminho foi mais ou menos assim, água cristalina em abundância, água turva tentando encontrar um novo caminho e nada mais de água no “Finado Taquari”.

Me chamou a atenção também a enorme quantidade de fazendas abandonadas da região. Currais (Mangueiros), casas e retiros, tudo largado ali. Vez em quando via umas poucas cabeças de gado e uns bandos de porcos. “ — Esse gado é alongado Leo”. Quer dizer que está há tanto tempo ali sem contato nenhum com o homem que são sobreviventes e selvagens. Assim como os porcos que eram em sua maioria os Monteiros, porcos trazidos por espanhóis e portugueses que ficavam “trás dos montes” e que se adaptaram e se reproduziram em grande escala pelo território pantaneiro.

Nossa primeira parada fora na Fazenda Santa Fé do Corixinho, onde o pecuarista Eduardo Cruzetta vem fazendo enorme esforço para a criação do Boi Orgânico no Pantanal. É sabido que ganhar dinheiro com pecuária é por si um grande desafio. Fazer acontecer de forma orgânica, respeitando todas as exigências da certificação e no bioma em que está inserido é uma epopéia. Todavia encontrar uma cabeça aberta à novos caminhos como a do Edu deve ser exaltado e divulgado. Como toda segunda e terceira geração da família ele tem seus desafios internos e externos para superar e implementar o que acredita. Ali fomos super bem recebidos e experimentamos o delicioso churrasco do Setembrino (chuta o mês que ele nasceu?!): Costela, Ponta de Peito e Viúva. Duas horas temperadas com laranja, limão e sal. Mais duas a três horas no bafo e lá estava. A carne fica dura na casca e macia por dentro. Com o facão ele “casquerava” cada pedacinho ao servir para garantir a experiência. Tinha alguma coisa ali, algum detalhe que dava um sabor muito único para aquele churrasco. Aos poucos ele entregou para nós… era o “sal de boi”; logo logo presente nas mais variadas casas de carne por uma fortuna aqui em São Paulo rsrs.

O povo pantaneiro é muito interessante também. Em geral eles tem um olhar profundo. Penso pela solidão do isolamento talvez, já que é tão difícil se deslocar por ali. Talvez pela vida árdua do campo mesmo.Os peões, sabendo da presença de visitantes, caprichavam na “tráia” do cavalo. Tinha ali um entre eles que era um domador de cavalos com bastante experiência. O sotaque deles é gostoso de ouvir, tem um “ish” no som do “S”: Fash = Faz | Poshto = Posto | Ishtouro = Estouro. Umas palavras novas que aprendi:

“Piloteiro”, aquele que pilota o barco, na verdade é Peloteiro, aquele que antigamente usava a Pelota, um couro de boi esticado por duas varas usado para passar a bagagem da comitiva de um lado do corixo para o outro.

“Bruaca”, caixas usadas no lombo dos cavalos para atravessar e levar carga da comitiva.

“Poita”, âncora das chalanas, balsas e barcos menores.

Sobre a comida pantaneira, tudo simplesmente delicioso. Granito, Surtum, Leitoa de pegar com pegador pois com garfo não conseguia. Arroz carreteiro no café da manhã com ovo frito. Tereré bem gelado. Coalhada caseira, queijo frescal, doce de leite caseiro e goiabadas cremosas, pães caseiros, chipa, sopa paraguaia, paçoca de carneiro, sopa de piranha, pacu assado e aquele arroz e feijão de fazenda que não tem igual.

Nessa altura estávamos já no quarto e penúltimo dia da viagem. Foi tanta paisagem linda, tanta coisa, gente, comida, risadas e aprendizados que não podia imaginar que o melhor ainda estava por vir. Aqui começava a maior sequência de bichos silvestres que eu já vira na minha vida.

Pela manhã em uma aventura pelas áreas de brejo, vimos emas, catetos, araras, veados, quatis, lobinhos, jacarés e um “tucano” com o bico preto. Ao redor de um lago, colheireiros e mais um belo ninho de tuiuiús em uma árvore chamada Manduvi. Pela tarde, chegando em uma reserva florestal chamada Santa Sofia, Fomos almoçar e reencontramos nesse almoço toda a turma que partiu de São Paulo conosco e correndo tentamos nos atualizar por algumas horas e já nos dividiram novamente. “ — Leo, agora você volta com o Mario para a Caiman de balsa e caminhonete e nos vemos amanhã”.

O Mario tem uma história muito interessante. Já foi piloto de corrida, já visitou todos os grandes bichos selvagens em seu habitat natural tipo leões na savana africana, pandas na China e gorilas em Uganda. Há dez anos encontrou uma forma eficiente de inverter a razão do valor do bicho morto (caça) pelo bicho vivo (ecoturismo) e foi através da habituação das onças que vem conduzindo iniciativas espetaculares de preservação e regeneração no Pantanal, atraindo turismo do mundo todo para conhecer de perto seu projeto.

Quando pulamos atrás da caminhonete do Onçafari, eu imaginei que levaríamos alguns minutos até o próximo destino. Que nada; foram mais de quatro horas e meia de pura emoção. No caminho entre a sede da Santa Sofia e a balsa na beira do Rio Aquidauana avistamos uma Irara; parece um furão. Algumas araras azuis a mais e de repente, a caminhonete para. “ — Dá uma olhada ali!”; dizia o Chipa, quem conduzia o carro. “ — Ali onde?” indagávamos. “Ali deitado oh!” E apontou no rumo de algo que eu só pude entender o que era perto de um minuto depois.

Ficamos uns quinze minutos parados observando a cena. Ir pro Pantanal e poder ver uma onça na fazenda era algo que apenas 5% dos visitantes conseguiam há 10 anos e hoje, graças ao trabalho deles, a curva chega próximo a 95% segundo a Lili, bióloga e guia mais experiente no local. “Vamo moçada que eu ainda tenho que voltar com essa balsa antes de anoitecer — pedia o Hemerson nos apressando com razão. Pegamos a balsa e navegamos por mais de uma hora em tamanha calmaria e beleza que associei logo com uma sessão de meditação ou terapia de presente pela mãe natureza.

Ao apoitarmos na outra margem do rio, já estava escuro. Com lanternas acesas manobramos a caminhonete para fora da balsa e seguimos por terra as próximas três horas dali. “ — Põe esse casaco Leo que vai ficar frio!”; a sensação com o vento batendo na cara era de tipo dez graus mesmo. O céu era tão límpido que a guia avistou e nos mostrou a constelação de escorpião e nos ensinou a encontrar o sul verdadeiro pelo cruzeiro do sul. Contou também sobre a mitologia grega de Hera que ao acordar enquanto Hércules, filho de Zeus mamava em seu seio, derramou parte do leite nos céus e assim formou o que chamamos de Via Láctea.

“ — Agora vamos fazer algo que chamamos de focagem”. Basicamente a Vitória pegava uma lanterna e passava de um lado para o outro pela fazenda, na espera do brilhar dos olhinhos da bicharada. Assim avistamos lobinhos, tamanduá-bandeira com um filhote nas costas, cutia, um veado-mateiro, uma cobra boca de sapo e mais uma carcaça.

“ — Opa, pera ai que essa carcaça não estava aqui quando viemos pela manhã. Acho que as onças pegaram agora. Entra nesse pasto a esquerda aí, vamos ver”. Quando o Chiba apontou a lanterna, uma onça menor do que o macho (portanto fêmea) na frente e três oncinhas pulando feito pipoca corriam atrás dela em direção ao capão. Foi tudo muito rápido, essa não deu tempo de ninguém fotografar. Contando as duas onças copulando (dando uma chuchada) que vimos logo quando chegamos na reserva, o grande macho da pata machucada, essa mãe e seus três filhotes, o Mario não se aguentou: “ — Porra Leo, 7 onças em um dia!”; Comecei a valorizar mais o fato. E o Chipa retrucou: “ — Meu recorde é 9”; comecei a acreditar que dava para bater isso aí rsrs. Quando avistamos umas luzes mais fortes, era sinal que estávamos chegando em um dos retiros, território da primeira história de sucesso de uma reintrodução de onças pintadas no mundo. Ela é famosa e se chama Fera e com a ajuda de uma antena e o sinal transmissor de seu colar conseguimos chegar perto dela e do seu filhote, que chegou a apenas três metros da caminhonete. Pensa numa travada que eu dei. “ — Ela é habituada” disse a Vitória. A mãe dela já a ensinou que não fazemos mal à elas. “ — Ela é, mas eu não!” respondi rindo de nervoso.

Vi tantos bichos num dia que me lembrei de um causo que o meu Dindo me contou tomando uma comigo uma vez. Ele me dizia que um pescador pantaneiro saiu com uma linha enrolada numa latinha e o anzol. Tava um calorão daqueles e ele resolveu pescar. Sem saber ao certo o porquê, colocou um pedaço de carne que sobrara do churrasco de ontem no anzol e largou no rio. Não passou um minuto um lambari beliscou e ele começou a puxar. Na puxada veio uma traíra e engoliu o lambari. Ele começou a puxar a traíra, veio um dourado e engoliu a traíra. E dá-lhe que o dourado puxa dali e ele puxa de cá, veio um jacaré e engoliu o dourado. A hora que ele tava tirando o jacaré da água na linha, enrolou uma sucuri no corpo do jacaré e enquanto ele se desdobrava para não perder o jacaré para cobra, deu de cara com um grande Urso. “ — Ué Dindo, até aqui era exagerado mas era tudo bicho pantaneiro, agora um Urso no Pantanal?” — perguntei. “Pois é rapaz, disse que ele grudou nas duas orelhas do bicho e perguntou: Que que ocê tá fazendo aqui rapaiz!!”.

Olha, no meio dessa viagem, a Teresa que conhece e vai para o Pantanal há tantos anos me disse que em cada visita há o que ela chama de “Instante Único”, aquilo que marca, que não se repete e que fica anos na memória.

Apesar de tudo o que vi e descrevi acima, meu instante único vai ficar na visita que fizemos à escola Jatobazinho, do projeto Acaia Pantanal. Quando vi todas aquelas crianças do primeiro ao quinto ano, quando vi a sala de computação instalada com cerca de dez computadores e uma internet com 10 Mb apenas. Quando perguntei para as crianças: “ — Quem gosta de desenhar?” e TODAS levantaram o bracinho para cima. Ali eu não consegui segurar minha emoção. Acendeu uma forte chama de esperança de que talvez eu pudesse fazer algo para contribuir com o futuro deles. Já imaginou seu eu conseguisse inserir artes gráficas, design gráfico e animações na vida deles? Se no futuro eles pudessem escolher entre ir para o campo como vão e/ou trabalhar dali para o mundo todo?

Perguntei para Teresa o que a estimulava a fazer tanta coisa boa por onde ela passava e a resposta foi simples, mas não simplória. “Eu olho ao redor e se sinto que eu tenho condição de fazer, aí eu vou e faço. Acho que é nossa obrigação melhorar o entorno onde passamos e nos instalamos”. É o mesmo conceito de quando colocamos um shopping center em uma nova cidade ou bairro; melhorar e gerar valor para o entorno. É o mesmo propósito que tenho de vida, o porquê faço o que eu faço. Acredito que o que temos e herdamos seja do tamanho da nossa responsabilidade. Se você é capaz de enxergar coisas que o outro não vê (visão), e você tem meios para fazer acontecer, promover essa mudança (poder), contanto que você use isso para o bem maior, e não apenas para si (generosidade), você tem que fazer acontecer (agir). Você não pode deixar de promover o impacto positivo na vida das pessoas que pertencem ao mesmo contexto (terráqueos) que o proveu com tudo o que você usufrui hoje (unicidade).

Navegar nessa complexidade entre educação, a geração de empregos, grupos de interesse, pecuaristas, ambientalistas, o desenvolvimento através da preservação e aumento da produtividade por hectare existente é no mínimo intrigante. Ajustar a narrativa, encontrar oportunidades onde não estão encontrando hoje, o ESG bombando, a pegada de zerar o carbono, o boi como sequestrador e emissor, boi roçador, boi bombeiro, o carbono que a planta sequestra enquanto cresce, o equilíbrio e mais importante que tudo isso, o diálogo; a capacidade de “construirmos pontes e não mais muros” entre a agropecuária e o meio ambiente.

Escrever essa crônica foi a forma que eu encontrei para agradecer essa viagem inesquecível. Vou fazer o que estiver no meu alcance para que eu possa voltar em 30 anos com meu filho Francisco nesses mesmos lugares por onde passei, para que ele possa ver tudo isso que eu vi ainda mais regenerado e com muita vida e árvores nas alturas e quem sabe com jovens formados e empregados em design gráfico e animação em Miranda e Corumbá.

Ps: A música Comitiva Esperança nunca fez tanto sentido como agora para mim.

Ps II: Alguém poderia reativar o Trem do Pantanal? Parece ser uma rota incrível.

Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.