Margeando o Iguaçu
Turismo regional, chegou o seu momento!
Madrugada de sábado (23/05), quatro horas da manhã. 13 graus lá fora; frio incomum na capital paulista. Carro abastecido e carregado já na noite anterior; galão Termolar com 5 litros d’água gelada, cuia e bomba de tereré ajeitada (é o rebite do MS). Quatro mistos duplos com manteiga Aviação, presunto Sadia fatiado fininho. Tudo pronto para o trecho São Paulo — Concórdia — SC; sozinho.
Sair pela cidade nessas condições é no mínimo interessante. Trânsito praticamente nulo, pelo horário e pela quarentena, Waze me mandou direto para a Régis Bittencourt sem passar pelo Rodoanel, via Francisco Morato. Ali pude contemplar a beleza de um caminho constantemente ignorado e me encantei com uma igreja, toda iluminada próxima à estação — Templo São Paulo, dos Mórmons. Também me espantou o tamanho da obra da estação de trem ou metrô que está saindo por ali. Nossa cidade é muito grande, vivo há 34 anos nela e não conheço nada.
Para muitos uma viagem longa de carro é uma tortura, para mim uma terapia. Entro em estado puro de meditação. Quando o trecho é longo, tem que saber viajar para o tempo render. Tem que ter Sem Parar para passar nos pedágios direto e fazer parada(s) curta(s) para banheiro e reabastecimento. Tem que saber sentir o carro para acelerar o pedal na hora certa, para autonomia aumentar. O que faz a viagem fluir são esses detalhes e não sentar o pé como muitos acham ser a solução. Quem pára muito fica ultrapassando os mesmos caminhões várias e várias vezes ao longo do trecho; é desanimador.
O trecho entre São Paulo e Curitiba está todo duplicado. Há um fluxo intenso de caminhões pesados mas a segurança da estrada hoje privatizada é muito maior do que há dez anos atrás. A Serra do Cafezal é a primeira etapa que chama a atenção na viagem. Curvas sinuosas e cheias de radares cortam o Vale do Ribeira, de mata densa e verde escura. Na sequência da Serra vem um retão duplicado sem fim, até chegar na região de Iguape, ou Registro. O que mais gosto daqui são os Bananais. Paisagem diferente, incomum ao sentido Bandeirantes/Anhanguera — cheio de canaviais e laranjais. Aqui começa a oferta de produtos do caminho. Naturalmente encontramos um monte de vendedores de banana beira-de-estrada, estilo sacos pretos flutuantes, tudo muito improvisado.
Serra do Cafezal — SP
A segunda etapa, de Registro até Curitiba, aguardo ansioso pela chegada a Represa do Capivari. Não conheço ninguém que tenha casa lá, nunca vi nenhum barquinho passando, nem sei se pode. Gosto de ver se tá cheia ou não a represa só de curioso. Ficam aquelas marcas de terra no barranco. Agora tem uma ponte estaiada em um dos lados da estrada — São Paulo lançando moda país afora. Esse trecho é cheio de postos com nomes engraçados. Nunca sei onde parar para comer ou abastecer. Tem um que tem um Dinossauro. Normalmente acabo parando “no próximo”, hora que vejo, não parei em nenhum e fui até o talo do tanque, já em volta da capital paranaense. Aí se seu objetivo for descer para o litoral catarinense, vai passar por mais uma serra, passar pela potência de Joinville, Itajaí e a Miami brasileira — Balneário Camboriú. Depois de passar pelo I Fashion Outlet (jabá) em Tijucas, vem a belíssima Governador Celso Ramos e logo depois a Ilha da Magia. Mas essa é outra trip, talvez meu trecho de volta. Dessa vez segui rumo ao Oeste Catarinense mesmo — curioso pelo que estaria por vir.
Represa do Capivari — PR
Até aqui foram aproximadamente 5 horas de viagem direto. Pausa de 20 min para abastecer e dar uma passadinha no banheiro — de máscara, não dá vontade de permanecer muito tempo onde você não conhece. Já tinha comido dois dos quatro sanduíches, bebido uns 500ml de água, dá uma sensação muito boa e estranha olhar o relógio e ver que eram ainda 9 horas da manhã, relativamente cedo e eu já estava bem longe de casa. Para frente ainda teriam outras 6 horas aproximadamente; aí que eu pensei — se tivesse um hotelzinho charmoso no caminho… em tempos “normais”, seria uma opção maravilhosa para quebrar a viagem em dois dias. Não tinha; toquei direto.
Passando pela região de Araucária — PR, dei de cara com uma enorme fábrica da JBS. Essa região é muito forte no agronegócio. São diversas fábricas de ração e abate de suínos e aves em geral por todo o estado. É uma região muito rica em água também. Toda hora a estrada cruzava rios e riachos, um deles me chamou a atenção: Rio Iguaçu. Pode parecer óbvio para você mas eu nunca tinha pensado que Foz do Iguaçu era um local onde o Rio Iguaçu desaguava; muito menos que o Rio Iguaçu ficava no Brasil e atravessava o estado do Paraná. Além de divertido cruzar algumas vezes pelo rio no caminho, me chamou a atenção ninguém trabalhar a região com o viés turístico. Na Califórnia, com menos de 100km depois de Carmel sentido L.A tem uma dezena de hotéis e campings, bem organizados, limpos, com estrutura e respeitando o meio ambiente. Para o americano, qualquer curva de rio é Selfie Spot; colocam um hotel/motel, um *snack bar *e dão motivos suficientes para o turista visitar e deixar dinheiro na região.
Rio Iguaçu
Entre uma Araucária e outra, agora é época de pinhão. Aprendi com um amigo da região, o Kerber, que onde tem araucária, o sabor da carne suína é incomparável — pois assim como na Espanha onde os suínos da raça Ibérico se alimentam de nobres castanhas no chão, aqui os pigs da raça Moura (seus primos adaptados ao nosso clima desde os século XVI ) mandam bala nos pinhões.
Porco da raça Moura — pinhão neles!
Dos frutos e iguarias do caminho, consigo me lembrar de: kiwi, morango, pinhão, batatas, cebolas, vinhos coloniais e sucos de uva; o que mais me chamou a atenção foram as Ervateiras, casas de ervas-mate.
Ervateira Rei Verde — São Mateus do Sul/PR
Caminhão com Erva-Mate
Portal da cidade; Contenda — PR
Igreja em Antonio Olinto — PR
Igreja Ucraniana; General Carneiro — PR
Divisa do Estado em Porto União — SC
Ponte Pênsil — Campos Novos — SC
De São Mateus do Sul você segue para Porto União, General Carneiro, Irani — onde vi um dos nasceres do Sol mais lindos da minha vida no alto da serra, até chegar em Concórdia, a capital do trabalho, onde exatamente à trabalho, conheci minha esposa em 2008. Poucos sabem mas o nome Sadia, vêm de “S.A. Concór**dia”, **cidade onde fica a matriz e primeira fábrica da marca.
Concórdia — SC (atrás da praça tem a Rua Coberta, solução prática para eventos municipais. Ao fundo a fumaça da fábrica da BRF — cidade se desenvolveu em torno da planta.
De Concórdia partimos para Urubici, talvez um dos lugares mais lindos que já visitei, fica na serra catarinense e está localizado na região onde mais se encontra neve no Brasil. Isso mesmo que leu, de leve mas é neve. Com outros dois casais, fechamos um “airbnb*” *sensacional só para nós e a família que mora e cuida do local. Do nosso grupo, um dos casais está estudando avidamente para concursos públicos (juiz & delegado federal) e toparam essa pausa para nos encontrarmos. Outro casal, um é médico e não descansava sequer um dia desde o início da pandemia; escolheu esse final de semana como merecido descanso entre nós — outra é agente autônoma financeira e conseguiu se organizar para estarmos juntos também. Vieram os quatro de Porto Alegre de carro. Uma vez por ano já é tradição, nós 6 viajamos juntos, bebemos muito vinho, jogamos muitos jogos, damos muitas risadas e fortalecemos o que mais senti falta nesse período de isolamento: o compromisso de permanecermos juntos em amizade, por mais um ano na vida. No trecho entre Concórdia e Urubici, o Waze me jogou para um caminho alternativo, com certeza não era a estrada principal mas com surpresas encantadoras.
Capital da Kerbfest; Peritiba — SC
Ipira — SC
Rio Uruguai; Piratuba — SC
| Maior sequência de Ipês Roxo que já vi foi nesse trecho na região de Capinzal — SC
Cascata do Avencal; Urubici — SC
Serra do Corvo Branco — Urubici
Foto de Neve na Serra do Rio do Rastro — perdemos por alguns dias de diferença
De Urubici para São Paulo, pela longa distância, fizemos um pit-stop em Portobelo — SC. Nessa época o local é deserto, a maré sobe encurtando a praia mas é sempre bom estar perto do mar. Deu para comer bem, correr para queimar a graxa, e descansar para seguirmos de volta para casa em São Paulo.
Recanto do Fabio — Estaleiro — SC
Fazendo um paralelo com o estado mental coletivo dos últimos 150 dias, tenho buscado muito manter o equilíbrio em meio ao caos, ao isolamento, às questões econômicas e sanitárias. Tenho me aprofundado na busca de uma paz interior maior. Comecei a clicar a natureza com o meu celular, tudo o que me chamava a atenção eu ia clicando. Depois aprendi lendo Um Novo Mundo, que o contato com a natureza nos aproxima de nós mesmos, significando que nós e a natureza na verdade somos a mesma coisa, com a diferença que há pensamento na nossa cabeça e de alguma forma eles nos afastam do nosso Ser verdadeiro — Sim, nós e nossa mente não somos a mesma coisa ou mesma pessoa rsrsrs.
Dessa viagem em diante, resolvi que não pararia mais de viajar pelo Brasil. Respeitando as regras locais em relação à quarentena, decidira que aproveitaria essa janela inédita na vida para viver mais tempo em cidades que não imaginaria que fosse possível antes da realidade imposta. Viva o *Zoom, o Meet, o Teams, Blue Jeans e o Wi-Fi. *Na lista de cidades passei alguns dias em Holambra, Valinhos e Campos de Holambra (Paranapanema) também, sempre na cia de poucos e bons amigos.
Campos de Holambra — SP
Valinhos & Faz. Grama — SP
Falta ainda Florianópolis que programei para outubro/novembro para fechar com chave de ouro esse ano maluco. Se mais pessoas notarem que toda essa situação abriu a possibilidade de rodarmos de carro nosso país, como turismo, há uma grande chance de vermos o interior do Brasil se expandir de forma mais consciente e planejada que os grandes centros urbanos locais atuais.
Se o acesso à internet se globalizar de fato, com os projetos de wifi via satélite que estão em andamento, logo-logo veremos abundância na prestação de serviços em escala nacional . O *remote work ou tele-trabalho, *antes mais restrito à área de tecnologia, chegou para ficar no setor de serviços como um todo e isso já está mexendo com a lógica de urbanização e projetos de espaços de trabalho e de moradia pelos 5 continentes.
Hoje, sábado 22 de agosto, passados 90 dias do início dessa crônica, estou em casa em São Paulo. Uma sensação gostosa de não fazer nada nesse frio danado. Ela lendo um livro, eu aqui escrevendo depois de um café da manhã calmo e saboroso.
A quarentena me ensinou na raça a deixar de querer e começar a agradecer.
Home Office — SP
Ps: Foram mais de 5.000km rodados nestes 150 dias. Repetimos alguns dos destinos por mais de uma vez, inclusive São Paulo — Concórdia ida e volta.
Ps II : busquei no google imagens dos ptos turísticos das cidades quais fui passando pra elucidar oportunidades de turismo pouco conhecidas
Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.
Uma crônica por semana, direto no seu WhatsApp. Sem spam, sem pressa.
Seguir o canal