Vendi meu Carro na Web
e fiz um amigo novo pra 2020…
Já tem algum tempo que milhares de pessoas colocam seus carros para vender na internet. A gente é um povo desconfiado por natureza, portanto assim que o nosso anúncio fica ativo o que esperamos receber além de pessoas interessadas em te encher a paciência é um golpe de alguém querendo roubar seu whatsapp para pedir dinheiro emprestado à sua lista de amigos. Ocasionalmente, pode ser que a gente realmente faça negócio com alguém — então a gente arrisca.
Nesse ambiente hostil aconteceu algo inusitado. Vendi meu carro e ganhei um brother. Uma das amizades mais legais e rápidas que fiz esse ano. Há quase 30 dias com o anúncio* premium* no ar e com mais de 108 “interessados em comprar meu carro”, não aguentava mais receber notificações tipo:
— “Olá, fiz uma simulação de financiamento para este veículo e estou interessado nele”; mentira você nem lembra que entrou em contato comigo.
— “Aceita um ferro de passar roupa e um Siena 2007 na troca”; não, apenas dinheiro. Alguém poderia incluir um botão tipo Aceita Troca?!
— “Parcela em 5x?”; Não amigo — não é Casas Bahia, é um cidadão comum querendo encerrar esse assunto asap.
Nessas conversas com interessados, aparece gente de tudo que é jeito. Molecada mais nova querendo um carro novo, advogado querendo te doutrinar quanto aos seus direitos, especialistas em carros que te ensinam mais sobre o seu veículo do que você possa imaginar e etc. Lá pelo dia 15 com o anúncio ligado, despertou meu lado marketeiro para o assunto.
Ninguém (pessoa física) compra um carro sem olhar — portanto minha resposta padrão virou: Quando você pode vir ver o carro? E já afastava 80%.
Brasileiro gosta de desconto e negociação — portanto tem que por uma gordura no preço original para o cara poder te espremer e sair feliz.
Era *Black Friday *amigo. Como não aproveitar essa data incrível do varejo? Soltei a promoção até a 6a-feira fatídica. Preço realmente bom pra nego fechar de uma vez.
Dos 108 *leads *3 vieram visitar o carro. Um senhor gringo, educado, olhou o carro por 5 minutos e vazou. Um executivo da TOTVS, perto dos 40 anos, resolveu dar uma volta no quarteirão comigo em pleno horário do almoço — levamos 30 minutos presos no trânsito — que erro. O último, um cara sensacional, de boa e objetivo.
— Gostaria de ver o carro anunciado.
— Beleza, moro no Itaim Bibi.
— Pode as 11h? (no mesmo dia)
— Posso.
E ele veio.
Logo quando chegou, me perguntou se era perigoso deixar a “motinha” dele ali na rua. O cara era um figura, tiozão jovem de cabelo grisalho arrepiado, barba rala, jaca de couro. O cara chegou de Vespa (uma das minhas paixões em design e lifestyle) e um sorrisão no rosto. Empatia é um negócio louco, que o mundo digital não conseguiu ainda transmitir.
Meu carro era um A4 de 2005, blindado de baixa rodagem (48.000km). Ele entrou, engatou as marchas pra frente e para trás. Olhou os detalhes e me perguntou onde estavam as buchas. Enquanto ele analisava o carro, e eu ia respondendo, ele ia falando sobre a vida dele.
— Sabe que que é meu, esse carro seria para minha esposa usar. To com um Corolla atualmente. O carro é perfeito meu, não quebra, não dá trabalho e manutenção; nada. Eu preciso de mais emoção saca?!
Nessa hora eu lembrei de um causo de faculdade que havia escutado, sobre o apelido dado à uma garota de Corolla por ela ser tudo de bom, mas não o suficiente. “Ela era bonita, mas não tão bonita assim. Ela era legal, mas não tão legal assim.” Rachamos de dar risada juntos. A gente conversou de forma bastante franca sobre tudo e ele me fez uma oferta:
— Leopoldô, não vou te enrolar. Aceita X a vista?
Era muito abaixo do que eu esperava, então sugeri para ele que esperasse a Black Friday que voltaríamos a falar. Antes de sair ele disse:
— Qualquer coisa eu te faço um sinal e depois acertamos a diferença.
Eu disse para ele do outro lado:
— Se a proposta é firme, não precisa de sinal. Espero você pegar o dinheiro e você me manda tudo de uma vez quando puder. Só me avisa se vai querer mesmo que esse carro é seu.
Entramos no modo raiz — o que vale no homem é a palavra dele. Fui criado assim. Ele saiu realmente querendo comprar o carro e eu realmente querendo vender para ele. Nós dois ainda não tínhamos equacionado um valor que fechasse as pontas apenas.
No sábado, ele mandou para mim a comprovante da TED com o valor cheio negociado. Um super voto de confiança — afinal o DUT ainda estava no meu nome. Na última vez que vendi um carro assim, fizemos esse trâmite no cartório, um na frente do outro para garantir que não íamos ser passado para trás.
A coisa fluiu de um jeito tão maneiro que acho que minha esposa sentiu minha satisfação e sugeriu: por que a gente não deixa uns presentes para eles comemorarem a compra? Atenta ao mundo digital e sensível ela montou uma sacolinha com cervejas artesanais, chocolates e um bilhete escrito à mão — famoso pós-venda. Escuta aí a satisfação dele:
Já passado mais algumas horas, ou seja, devia estar ainda pensando que legal tudo isso que estava acontecendo, me mandou a mensagem abaixo com sentimento totalmente recíproco:
Zap do Ano!
Em 2020 vamos acabar tomando uma juntos com certeza! Valeu mano!
Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.
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